O apreciar nas Canções de Gesta
- 24 de mai. de 2018
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A Idade Média está cercada de lendas e mitos que fascinam milhões de pessoas até os dias de hoje. Estas lendas na época faziam parte da tradição oral de diversos povos e com o tempo iam agregando outros elementos e personagens, sempre em forma de contos, cantos ou trovas. No decorrer do século XIII, passaram-se a desenvolver e a registar em papel, histórias e narrativas romanescas de acentuada admiração, cujos personagens eram, regra geral, heróis meio-lendários. Foi à poesia trovadoresca (por trovador entende-se todos os homens de arte que escreviam trovas – versos-) e compunham melodias para cantá-las, na fala galaico-portuguesa que, por mais de um século se fez ouvir em Portugal, que encontrou na escrita o apropriado meio de registo da arte lírica criada por trovadores, e que deu inicio à expressão literária da língua portuguesa. Do registo lírico deu-se a Prosa medieval. Contrastando com a qualidade e volume da produção poética, os primeiros documentos literários em prosa exibem uma forma de expressão ainda confusa.
A partir do século XIII impõe-se então a verdadeira Prosa literária, de caráter ficcional e romanesco, tendo como tema central, a vida aventurosa dos cavaleiros. Este tipo de obras, que se passou a chamar de “Romances de Cavalaria” nasceram no antigo reino de Provença, mas depressa se espalharam por toda a Europa, e criaram aquilo que hoje se entende pelos Mitos da Idade Média, ligados às aventuras de cavaleiros com seres fantásticos (como os Dragões), à demanda de objetos sagrados (como o Santo Grall) ou à exaltação dos ideais de cavalaria defendidos por cortes imaginárias (como a Corte do Rei Artur).
Estas narrativas constituíam séries ligadas — os chamados ciclos; os seja: obras escritas tomando como pano de fundo as mesmas narrativas mitológicas — e neles cada sociedade europeia expressava a sua identidade que caracterizava o seu estilo de vida, o seu modo de ação e estratégia militar e a sua riqueza cultural. Estas narrativas constituíam séries ligadas — os chamados ciclos; os seja: obras escritas tomando como pano de fundo as mesmas narrativas mitológicas— e neles cada sociedade europeia expressava a sua identidade que caracterizava o seu estilo de vida, o seu modo de ação e estratégia militar e a sua riqueza cultural.
Então vamos parar de enrolação (realmente), e irmos direto ao assunto do nosso post, as Canções de Gesta. Você já ouviu falar das canções de gesta? Se não, sem problema, vamos conhecer um pouco juntos. O termo "gesta" vem do latim gesta, orum (n.pl.) que designa feitos, façanhas, daí que estas canções relatem feitos gloriosos de cavaleiros (reais ou imaginários) e, por vezes, da família destes, com o objetivo de enaltecer um ideia nobre, uma moralidade ou um espírito cristão, elementos fundamentais para a formação de um país.A canção de gesta é um poema épico, típico de abordagens sobre as invasões da Alta Idade Média. Foi também a primeira manifestação literária laica em língua francesa, constituía uma forma de divertimento para a nobreza cavaleiresca dos séculos XI-XIII.
Eram cantadas/recitadas em feiras, torneios, cortes principescas e acampamentos militares por jograis. Por vezes os próprios cavaleiros se punham a cantá-las para excitar a coragem antes das batalhas. Apesar do seu caráter de diversão essa poesia épica continha em suas narrativas um pensamento politico baseado no “agostinismo” desenvolvido nos meios clericais, o qual foi adaptado e difundido pelos lideres laicos dos diversos principados franceses, a partir do século XI. Nela estavam representadas as relações entre o monarca e seus vassalos, tanto as harmônicas quanto as conflituosas. Apesar de ser aristocracia a responsável pela difusão das Canções, seu conteúdo apresenta uma forte tendência monárquica, mesmo nos poemas onde o rei/imperador carolíngio é mostrado fraco ou cujo comportamento destoe daquele esperado pelo chefe maior da cristandade.
A mais antiga canção de gesta preservada é A Canção de Rolando, 4002 versos, mas algumas canções podiam chegar a dezenas de milhares de versos. No geral, as canções possuíam versos de dez sílabas (decassílabos) com uma pausa (uma cesura) depois da quarta ou quinta sílaba. Inicialmente as canções não utilizavam a rima, e sim a assonância, ou seja, a repetição do som das vogais nos versos de uma estrofe. Organizavam-se em estrofes com número variado de linhas, entretanto, predominavam as combinações métricas de quinze versos. Às vezes, encontravam-se estrofes compostos de centenas de seguimentos encadeados. Mais tarde, várias canções passaram a utilizar a rima e versos alexandrinos (dodecassílabos).
A cultura cavaleiresca das canções de gesta, que se difundiram por toda a Europa, está presente também na literatura de vários países. É importante ressaltar que, quando revisitamos “antigas” obras ou temas, é preciso, também, reler e reinterpretar fontes conhecidas e consagradas, e ora estudando-as de um ponto de vista novo. Por fim, entende-se que as composições apresentam-se em versos e enquadram-se nos moldes do gênero épico, diferenciando-se na visão de mundo abordada, uma vez que cada uma delas reflete tempo e sociedades diversas: Idade Média e Antiguidade/Renascimento, respectivamente.
No tempo de Carlos Magno: “a cavalaria compreendia, essencialmente um grupo profissional, o dos guerreiros de elite atacando impetuosamente, de lança ou espada em punho, em todos os campos de batalha da Europa medieval [...]”. A partir do momento em que a Literatura se apropria do ideário que envolve a figura do cavaleiro, mudou, pouco a pouco, através de heróis emblemáticos como Rolando ou Lancelote do Lago, Alexandre ou o rei Artur; sonho e realidade misturam-se assim para formar nos espíritos uma cavalaria que, mais que corporação ou confraria, torna-se uma instituição, um modo de viver e de pensar, reflexo de uma civilização idealizada.
Então, pode ter surgido uma dúvida, em relação há uma ampla semelhança entre as canções e epopeias. E você ai, está certinho ao ter pensado assim. Embora a canção de gesta e a epopeia tenham alguns pontos semelhantes, tais como, a base em fatos transformados em lendas, em mais de um herói e outros, estas composições apresentam também diferenças fundamentais, a começar pelas ideologias que as criam, sendo que se identificam de acordo com as crenças de cada sociedade. Para a epopeia, os deuses eram criados à imagem e semelhança do homem, que vivia sob certo destino, entretanto buscava conquistas por honras e méritos. Na gesta, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, devendo-lhe devoção; o herói defende o bem e luta para conquistar a salvação, a partir do Cristianismo.
A Igreja, com o monopólio da cultura, influenciava as obras literárias. Em um primeiro momento as hagiografias (tipo de biografia), as crônicas, as canções de gesta, assim como as demais criações, durante toda a Idade Média. Todo o conhecimento passava pela concepção das Sagradas Escrituras. Compreendemos, deste modo, que o maravilhoso cristão tem, na Idade Média, o contexto favorável e produtivo à arte literária voltada ao ensino da fé cristã. Em uma breve citação, podemos inserir nesse contexto o pensamento de Le Goff (historiador francês, especialista em Idade Média), reflete sobre este aspecto, destacando que “[...] a recuperação cristã arrastou o maravilhoso, por um lado, para o milagre e, por outro, para uma representação simbólica e moralizante”. (1994, p. 54) Para finalizar o texto (ufa), agradecemos à leitura e para dúvidas ou contribuições, só entrar em contato pelo e-mail (encontra-se ao lado direito do site ein). Vamos compartilhar conhecimento nas redes sociais, juntos? Até breve galerinha.
Dicas de leituras - D‟ONOFRIO, Salvatore. A Era Medieval. In: ______. Literatura ocidental. Autores e obras fundamentais. São Paulo: Ática, 1990. p. 149-214.
Dicas de filmes - As brumas de Avalon. Ano: 2001. Direção: Uli Edel. Gênero: Drama/Fantasia. Temática: Lenda do rei Arthur.
Referências - ______. Cavalaria. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente medieval. São Paulo: EDUSC, 2002. v.1. p. 185-199.
LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. José Rivair de Macedo (Trad.). Bauru, SP: Edusc, 2005. Coleção História.


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