A cavalaria medieval
- 24 de set. de 2018
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Olá galerinha do medievo, se liga nesse tema da publicação de hoje. Incrível né? A Idade Média, não poderia deixar de nos legar uma de suas imagens mais recorrentes que persiste na memória de todos aqueles que têm o mínimo de curiosidade sobre esse período. Esta imagem é a dos cavaleiros. Proponho a vocês leitores uma pesquisa breve no dicionário, sobre a palavra cavaleiro. Em abordagem geral, designará “Homem montado a cavalo, que sabe e costuma andar a cavalo. Membro de Ordem de Cavalaria; cavalariano. Aquele que faz equitação, adestrando ou correndo em cavalos.” Ou aparecerá de maneira figurada, como “Aquele que se comporta com valentia e braveza; corajoso.” E no que se refere à História “Indivíduo que detém algum título de nobreza.”
Observamos então, que a figura fundamentada do cavaleiro medieval apresenta, no imaginário coletivo, uma permanência atraente de longa duração importante, tanto no medievo Ocidental quanto nas modernidades. Tal fundamentação da instituição originária de princípios do século X, da qual chamamos de cavalaria é o resultado de conjunturas socioeconômicas e mentais específicas da Alta Idade Média. A cavalaria medieval se constituiu como principal mecanismo de defesa para a proteção dos interesses da nobreza durante o feudalismo. A cavalaria era exclusivamente formada por nobres. De acordo com a sociedade de ordens na Idade Média, a divisão social era composta pelos que oravam (clero), os que trabalhavam (servos) e os que guerreavam (nobres).
A cavalaria medieval, consolidada no imaginário coletivo pelas cruzadas e os grandes nos campos de batalha durante a Idade Média Ocidental (476- 1453) é uma instituição muito mais mental do que física, ou seja, ganharam novo ânimo a partir da primeira geração da Escola dos Annales, em especial sob os escritos de Marc Bloch (historiador francês e um dos fundadores da Escola dos Annales). De acordo com o autor, a Europa era uma cidadela cercada por três populações distintas e que contribuíam para um cenário de desordem, violência atordoante e escassez endêmica. As instituições então singularmente centralizadas do reinado de Carlos Magno (768-814) veem-se diante da degradação dos herdeiros do Reino Franco frente às invasões nórdicas ao norte do território franco. Também se cita igualmente a presença dos cavaleiros magiares nas fronteiras ao Leste do Sacro Império Romano Germânico e sua hostil relação com a monarquia otoniana. Finalmente, no mediterrâneo as constantes incursões de piratas sarracenos ao Sul da Itália e França. Ou seja, a presença e dedicação da cavalaria nos exércitos feudais cresciam frente às invasões.
Podemos assim, evidenciar uma importante prática da cavalaria é o adubamento, prática onde um senhor dá o título de cavaleiro a fidalgo (nobre seu título). Esta prática é um ritual de iniciação entre o término da adolescência e o início da vida adulta e em périplos de fins do século X e início do XI seus elementos passaram a ser sacralizados pela Igreja. E toda rapinagem cavaleiresca podia ficar encoberta já que, ser valente, era possuir liberdade de ação para garantir o próprio sustento. Se dialogarmos a temática em questão, explorando de forma literária, há os romances de cavalaria, em uma citação de Georges Duby, exemplifica, “a exaltação da proeza, da rapina, da festa dos sentidos e da alegria de viver, evidentemente são construídos a partir de uma recusa firme do espírito de penitência e das renúncias pregadas pelos homens da oração”.
A literatura também criou a ilusão de que as virtudes fortes dos cavaleiros andantes eram mesmo a realização de um ideal de justiça. De acordo com a interpretação de alguns medievalistas, os “bons e gloriosos” tempos da literatura cavaleiresca parecem coincidir com os séculos XII e XIII. Essa foi a época de maior esplendor da cavalaria medieval. O prestígio dessa instituição militar nas sociedades de época deu origem a uma rica literatura ilustrativa de seus valores morais. Como instituição essencialmente militar, e sem desconsiderar as suas motivações religiosas, a cavalaria existiu em toda a Europa, mas foi à França a sua pátria de origem. De fato, a literatura derivada desse fenômeno constituiu-se, durante longo tempo, em um produto francês de exportação. Entretanto, a cavalaria foi igualmente forte na Inglaterra, em Portugal, na Itália e na Alemanha.
Durante as Cruzadas (expedições de caráter religioso, econômico e militar que se formaram na Europa), a Igreja criou várias ordens de cavalaria, com o propósito de proteção das fronteiras naturais da Cristandade. Com o fim das Cruzadas, as ordens cavaleirescas europeias perderam muito do seu campo de ação. Tornando-se parcialmente inativas, seus combates se restringiram à participação na luta contra os infiéis, na guerra de Reconquista da Espanha. Foi preciso buscar novas funções sociais para guerreiros desocupados. Em parte, os torneios criados no espaço vazio deixado pelas Cruzadas, reduziram a pressão negativa exercida pelos cavaleiros entre os demais segmentos da sociedade feudal. Contudo, até os finais do século XII, os torneios eram uma espécie de “réplica codificada” das guerras de verdade, o que levou a Igreja a se manifestar contra a realização dessas atividades.
A literatura cavaleiresca dos séculos XII e XIII constitui-se em fonte histórica reveladora tanto do ambiente de criação intelectual como das relações entre setores leigos e clericais nos fins da Idade Média. O romance de cavalaria foi o primeiro gênero literário de alcance continental escrito nas línguas vernáculas (“idioma puro”) emergentes. Mas foi além da Europa. No tempo das grandes navegações, romances cavaleirescos desembarcaram nas Américas. Em exemplo, podemos citar Sérgio Buarque de Holanda (Jornalista, sociólogo e historiador brasileiro nascido em São Paulo), um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX, que tentou interpretar o Brasil, sua estrutura social e política, a partir das raízes históricas nacionais. Na qual analisa em sua obra, Raízes do Brasil, apontando o esforço da produção literária em ajustar os costumes heroicos dos guerreiros da Idade Média à bravura natural dos aborígines: “(...) escritores do século passado, como Gonçalves Dias e Alencar, iriam reservar ao índio virtudes convencionais de antigos fidalgos e cavaleiros, ao passo que o negro devia contentar-se, no melhor dos casos, com a posição de vítima submissa ou rebelde.”
Diante disso, construímos o entendimento de que a cavalaria medieval tornou-se uma ordem de grande prestígio social, mas também passou por uma fase de remodelação pela sociedade cristã, pois ela estava no séc. XIII cada vez mais afastada dos valores considerados pela Igreja como formadores de um bom cristão. O pensamento medieval não permitia formas ideais de nobreza separado da religião. Por essa razão a piedade e a virtude têm de ser a essência da vida do cavaleiro. A cavalaria, porém, nunca virá a realizar perfeitamente esta função ética. A sua origem terrena impede-a, tanto isso é um dado de realidade que a história da cavalaria, se é composta por idealismo e nobres princípios, inclui também muita força bruta e complexos tramas políticas.
Eaê gostaram da temática de hoje? Foi legal essa aventura, um misto de informações? Nos contem sua opinião ou sugestão nos comentários. E avante nos estudos!! Indiquem o medievo literário, para que mais pessoas tenham acesso a este texto.
Dicas de filmes e leituras -
Joana D'arc. Ano: 1999. Direção: Luc Besson. Gênero: Biografia / guerra / histórico. Temática: Guerras e revoluções.
Referências -
BLOCH, M. A Sociedade Feudal. São Paulo: Edições 70, 1982.
Johan Huizinga, “A ideia da cavalaria”. In: O declínio da Idade Média, São Paulo, Verbo/Edusp, 1978. p. 65.
Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 56.


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