A poética do amor cortês
- 9 de nov. de 2018
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Em tempos que a propagação sobre o amor talvez esteja escasso... em torno da falta no que se refere ao diálogo, e do nosso olhar empático para/com o próximo. Que tal abordarmos na publicação de hoje sobre o amor no medievo? “que romântico” Mas o que seria de fato esse amor cortês medieval? Ou, como se praticava? No sentido da palavra Cortês significa, refinado, civilizado, urbanizado, haveria relação com civilização “cidade”? Então, que continuemos a leitura para um melhor entendimento sobre o tema:
Durante o período histórico conhecido como Baixa Idade Média, que compreende uma extensão temporal que vai do século X ao século XIV, houve o assentamento das esferas sociais do medievo. Entre essas esferas estava à aristocracia guerreira, expressa, sobretudo, pela formação da cavalaria. Da cavalaria derivou-se o comportamento cortês. Diante das cortes que se formaram em torno dos reis e dos senhores medievais instituíram regras de conduta sociais próprias relacionadas com os ideais de cavalaria. É o caso, por exemplo, do amor cortês. Ser amável, educado e fino. Saber expressar seu amor de forma gentil: essa foi a primeira e principal fase na transição do homem-guerreiro para o cortesão. Esse era o novo-homem cortês do século XII, um cavaleiro que caminhava a passos largos para se tornar um cavalheiro.
Nas cortes medievais, desenvolveu-se a prática do fin' amor, ou amour fine (isto é “amor fino”, amor nobre e puro), que consistia no cortejo praticado por jovens cavaleiros a damas já casadas com senhores, ou nobres, de alto prestígio social. Sendo assim, o amor cortês foi um conceito europeu medieval de atitudes, mitos e etiqueta para enaltecer o amor, e que gerou vários gêneros de literatura medieval, incluindo o romance. Era um código de comportamento amoroso em que os praticantes – cavaleiros – podiam demonstrar para a corte que o valor pessoal não se fundamentava apenas no sangue ou nas proezas militares, mas podia ser identificado no comportamento social: a cortesia.
A dama era idealizada pelos jovens cavaleiros, que almejavam um padrão, um modelo a ser seguido, que, por sua vez, estava associado mais diretamente à figura do senhor que propriamente à vontade de possuir a dama, como bem esclarece o historiador francês, especialista em História Medieval, Georges Duby:
“Amontoados na corte do senhor [os jovens cavaleiros] esperavam que a dama dele os distinguisse com um amor sincero e desinteressado. O ideal do amor cortês, tornado comum aos grandes senhores e aos novos-ricos, constituiu assim um meio de atenuar a tensão entre os diferentes estratos da nobreza feudal. (...) O amor puro (fin’amor) celebrava a abstinência, conservando ao mesmo tempo uma coloração carnal e, por isso, agradava à alta nobreza. A exaltação, ao mesmo tempo alegre e casta, do desejo suscitado pela mulher amada tomava uma tonalidade quase mística e saciava facilmente os fantasmas dos mais modestos.”
A mais intrigante característica desse amor medieval é a submissão absoluta do homem à dama. E mais: ele é solteiro, jovem; ela, casada, mais velha! Naquele jogo, onde a mulher era quem sempre vencia a capacidade do homem em se colocar, mesmo sendo fisicamente mais forte, é notória. Por amor, ela se tornou a senhora, a dama, e ele o vassalo, o submisso, aquele que prestava juras de fidelidade absoluta e agia sempre com moderação para não corromper a reputação da mulher amada, já que era uma mulher casada. Nos textos, o amor da dama é inacessível, intocável, distante. Claro, o segredo era a arma poderosa contra os ‘fofoqueiros’ que existiam na vida cotidiana das cortes. Porém, a beleza da mulher era exaltada, pois os trovadores usavam recursos para resguardar o nome de sua amada, com pseudônimos.
Desse modo, o amor cortês possuía a característica peculiar de estimular ou sugerir o desejo de possuir a mulher nobre, em um jogo amoroso praticado entre o senhor feudal e os jovens cavaleiros. Um desejo de amor sincero, e de amenizar tensões, mesmo que em calma, sem aspecto de valorização carnal. Esse tipo de prática cortesã também estava relacionado a duas concepções sobre a união entre homem e mulher que prevalecia na Baixa Idade Média: de um lado, havia o caráter utilitário e objetivo do casamento, que era “negociado” pela família da donzela; de outro lado, havia a concepção teológica católica do matrimônio, que especulava tanto sobre a sacralidade da união entre homem e mulher, quanto sobre o (pecado) ato sexual. Esse embate acabou gerando várias teorizações sobre o amor e também várias obras de gênero literário (contos, lendas, poemas).
Os senhores feudais contratavam recitadores, cantores e músicos para divertir a corte. O trovador ‘a arte de trovar’ deveria expressar seus elogios a uma mulher da nobreza, demonstrando subordinação às damas da corte, que deveriam ser tratadas com cortesia.
As cantigas de amor desenvolviam o tema do sofrimento pelo amor não correspondido e eram divulgados de forma oral. No que se refere às façanhas de amor foi bem contado por Guilherme da Aquitânia (o Trovador foi Duque da Aquitânia e da Gasconha e Conde de Poitiers entre 1086 e 1126):
Obediência deve professar / Obediensa deu portar
A quem muitas gentes deseja amar / a maintas gens, qui vol amar;
E convém saber fazer / e cove li que sapcha far
Feitos corteses / faitz avinens
E se guardar de na corte falar / e que's gart en cort de parlar
Coisas vis / vilanamens.
André Capelão, uma “testemunha autêntica do seu mundo” (o mundo da corte de Filipe II Augusto), diz:
“Quem desejar manter o amor intacto por muito tempo deverá cuidar, antes de tudo, para que ele não seja divulgado e mantê-lo oculto dos olhos de todos. Pois, assim que várias pessoas começam a conhecê-lo, ele deixa de desenvolver-se naturalmente e entra em declínio.”
Podemos fazer menção também, há algumas regras do amor cortês, que transcenderam o tempo:
1 – Fugir à avarice (avareza)
2 – Não interferir no amor de uma dama que está perfeitamente unida a outro
3 – Evitar a mentira
4 – Não contar os segredos do amor a vários confidentes
5 – Obedecer a todos os pedidos da dama
6 – Não ser maledicente
7 – Não trair o segredo dos amantes
8 – Em qualquer circunstância mostrar-se polido e cortês
(…)
O nascimento do amor no século XII foi um dos melhores legados que a Idade Média deixou para os tempos vindouros. Sua grande novidade foi colocar o homem numa posição subalterna à mulher, para cortejar e servir àquela que até então era uma cidadã de segunda classe e mais uma posse masculina em quase todas as culturas. O amor cortês é, portanto, um relacionamento amoroso entre um jovem cavaleiro e uma mulher casada. Um de seus caracteres fundamentais é sua conexão com o valor cavaleiresco, com a coragem guerreira, a valentia do guerreiro associada ao amor, essa “conexão necessária entre amor e valor cavalheiresco é uma característica própria ao amor cortês: combater bem, e não apenas cantar bem, é prova de que se ama, e é também a condição para ser amado”.
Então, quais foram suas conclusões diante da leitura? Fizeram alguma relação com o entendimento de “amor” no séc. XXI? Nos escrevam, por comentários, opiniões, sugestões... que continuemos apreciando e desfrutando dos laços “amorosos” haha. Até breve galerinha!!
Dicas de filme –
Excalibur / Ano: 1981. Direção: John Boorman. Gênero: Drama / Aventura / Fantasia. Temática: Lenda do Rei Arthur
Dicas de leituras e referências -
DUBY, Georges Idade Média, Idade dos Homens. Do amor e outros ensaios, SP, Companhia das Letras, 1989.
_______ “O modelo cortês”, in Georges Duby e Michelle Perrot, História das Mulheres no Ocidente (vol. 2 A Idade Média). Lisboa, Afrontamento, 1993.
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